Por volta das nove da noite, numa quarta-feira abafada, eu e Cris vamos até a casa da minha avó para nos despedirmos dos meus pais - que estão voltando para o paraíso que fica no Espírito Santo (a famosa Barra do Jucu). Entramos, então, no pequeno ônibus "executivo", em algum ponto da Getúlio Vargas. Apertado e infernalmente quente. Eu e Cris quase não conseguimos sentar um do lado do outro sem que nos espremêssemos para manter os dois braços no espaço do nosso assento.
Afinal, somos pessoas com ossos largos. Grandes. Robustas... fortes. Termos, geralmente, utilizados pelas pessoas que se referem aos mais gostosinhos.
Chegamos ao nosso ponto. Cris paga ao motorista, enquanto dois rapazes levemente alterados pela bebida, literalmente não esperam para subir e se atropelam na frente do Cris para adentrar no universo onírico do "executônibus" andante. Cris, em um rompante grita "ESPERA AÍ, MANO. VAMOS DESCER".A contra gosto, os dois rapazes levemente alterados pela birita, dão um passo para trás e aguardam do lado de fora, no ponto de ônibus lotado e suado.
Cris desce. Eu vou logo atrás. E nesse momento, era como se o tempo tivesse desacelerado e tudo ao redor girasse em câmera lenta - inclusive a roleta. Por alguma razão, desconhecida por mim e planejada pela força da natureza que zombava da minha cara - a roleta intencionalmente ENGATA. Me deixando presa do lado de dentro daquela amostra grátis de purgatório. Tudo fica suspenso no ar.
Silêncio seguido pelo desespero de uma Thais presa na roleta. Leia-se, a roleta engatou no ferro que é também guarda corpo do primeiro assento e não na circunferência avantajada da jovem e desesperada Thais.
E como vestes em chamas (de vergonha) da jovem Gláucia*, incendiada por Medeia, um dos rapazes levemente alterados pelo goró grita de fora do ônibus "DEIXA A MULHER GORDINHA PASSAR".
Como se alguém estivesse segurando a "mulher gordinha", como se a gordura da "mulher gordinha" não a estivesse deixando passar. POBRE MULHER GORDINHA!. Mulher Gordinha. mULhEr gOOOOORdinha. GOoOOOOOoooOooOOOooOOOoOOooooooOoooOOOOOOrdinha.
Aquela frase ecoava na minha cabeça.
Mal consegui ouvir a voz do Cris dizendo "CALA ESSA BOCA, SEU MARGINAL. RESPEITA!"
Ele me deu a mão e fomos caminhando em direção a casa da minha avó. As lágrimas caíram sem querer. Sem que eu pudesse controlá-las. Escorreram mornas no meu rosto suado e sujo de poeira da rua.
Não disse uma palavra. Caminhamos uns duzentos metros. Enxuguei meus olhos disfarçadamente para que o Cris não notasse. Pensei "que tolice, eram homens bêbados". E depois, mais a frente, pensei "não, não quero que mais ninguém me chame de mulher gordinha. Estejam bêbados ou não. Seja verdade ou não".
Até contar para o meu diretor de teatro, que já instituiu que na próxima temporada do nosso espetáculo ele vai inserir esse texto na peça. Tudo bem. Porque até lá eu já estarei magérrima e essa frase será meramente simbólica para engrandecer meu personagem - que por acaso - é uma mulher bem gordinha. E eu serei tão boa interpretando que ninguém vai notar que a atriz é na verdade uma mulher feliz com seu corpo. Vai ser lindo. Me aguarde, Abril.

